segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O caderno


Quando a minha Voinha completou 87 anos, eu dei de presente para ela um caderno em branco. Era o dia 5 de abril de 1999. Nossa relação era muito forte e a proximidade de perdê-la, me fez pensar em uma forma de congelar sua história. De tê-la comigo pra sempre.

O cartão que acompanhava o pacote dizia:

“Voinha querida, gostaria que esse presente fosse usado para celebrares a tua vida. Gostaria que escrevesses tudo que tua alma transpira, e com essas linhas revivesses cada capítulo da tua história – tão especial pra mim”

E ali, naquelas páginas cheias de relatos, ela me deixou sua melhor herança. O livro de capa preta me foi entregue depois que ela faleceu, aos 91 anos de idade. Dentro, vários cartões e recortes, com significativas passagens da sua trajetória.

Esse é o meu tesouro, que guardo com amor e carinho. De vez enquando abro suas páginas e me delicio lendo os capítulos de uma vida começada em 1912.

A letra cursiva perfeita, o português antigo, a fé e devoção à Deus, marcas registradas dessa pessoa tão especial e que me fez muito feliz. Tudo isso está ali, bem vivo nesse nosso canal de ligação atemporal.

Mas contei isso para chegar em outro assunto. Foi lendo o mais recente lançamento da minha autora preferida, que me dei conta de uma coisa interessante. A sensação de que algumas coisas são escritas para gente.

Em julho fui levar a Sofia ao médico, em Porto Alegre, e como sempre passei na Fnac. Dei uma olhada nos lançamentos e eis que salta aos meus olhos o novo livro da Isabel Allende.

Fresquinho, saído do forno. A versão ainda em espanhol, com capa reluzente: “El cuaderno de Maya”. Não tive dúvidas, comprei.

Já no ônibus de volta pra casa comecei a ler. A história é longa, mas o que quero contar é que foi escrita em um caderno que a avó da Maya deu pra ela. Exatamente para isso, para que escrevesse a sua vida e fortalecesse ali o elo entre as duas.

Fiquei anestesiada. Tenho sempre essa sensação com a Isabel Allende, de uma ligação direta, meio sem nexo. E isso já me acompanha há anos.

Quando li “A Casa dos Espíritos”, eu vivia em uma delas. Era adolescente e habitava uma moradia construída em 1810, com senzala e dezenas de cômodos. Não preciso dizer o quanto me senti na casa da Isabel, inúmeras vezes!

E não foi só dessa vez. As noites intermináveis de UTI, ao lado da Sofia, muitas vezes me fizeram lembrar suas palavras escritas em “Paula”. Ela descreveu a sensação de querer mover as montanhas pela vida de um filho. Senti profundamente.

E é essa sensação absurda, de comungar da mesma sintonia com alguém que não habita o nosso universo é maluco. Estranho, mas que me faz bem. Acho que é como uma viagem imaginária, onde me conecto com Isabel Allende, a minha Voinha e quem mais me inspirar.

Nesse momento acredito que nossos espíritos estão interligados.

Ainda não acabei de ler o livro. Maya ainda não terminou sua aventura pela ilha de Chiloé. Assim como eu, ainda não finalizei a minha.

Mas essa “coincidência” me fez buscar na gaveta o caderno da minha avó. Abri o baú das lembranças e o segurei com ternura, como se eu pudesse sentir aquelas mãos firmes, de longos dedos. Folhei as páginas impregnadas de vida daquele personagem. Uma mulher real, que viveu a vida sem ficção.

O bom é que me vi ali, em deliciosos capítulos da vida da minha Voinha. Foi muito bom ter feito parte dessa história real. E de alguma forma escrevo aqui algumas páginas do meu caderno. E como disse minha amiga Isabel Allende...

Y en ese largo y paciente ejercicio diario de escribir he descubierto mucho sobre mí misma y sobre la vida.

3 comentários:

Gisa disse...

Entendo a lembrança doce da tua voinha. Tenho a minha para sempre junto de mim no seu livro de receitas, com uma irretocável caligrafia e imagens dos quitudes recortadas e coladas por ela.
Um grande bj

Luiz Carlos Vaz disse...

Que belo presente. Quão bela deve ser a leitura desse "caderno" de sentimentos.

Nicenhah disse...

Que jóia tu tens nas mãos. Quisera eu ter ficado com uma lembrança tão concreta da minha vó.
Deve ser lindo viajar no tempo sob os olhos dela.